Crimes na quarta dimensão

Não resisto à tentação de reproduzir aqui, reflexões do juiz criminal fluminense e também professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro, dr. Gustavo Direito, sobre o livro do jornalista inglês Misha Glenny, onde narra o surgimento e o desenvolvimento de nova modalidade de crime organizado.

De forma minuciosa ele relata o funcionamento de verdadeiras organizações criminosas especializadas na prática de crimes cometidos na internet.

Diz ele que “Os novos criminosos não usam a internet apenas como veículo: como na pornografia infantil, venda de drogas ilícitas e de armas on-line (graves crimes que inundam também o mundo virtual), mas valem-se de sites destinados a negociação de senhas, números de cartões e de contas bancárias obtidas ilegalmente através de hackers ou, nas palavras dos entendidos, de crackers.

São ilícitos que nascem e se encerram no mundo paralelo da internet, se perpetuam através da criação de verdadeiros mercados livres (ligados ao submundo real), nos quais vendem seus produtos obtidos ilegalmente no universo imaterial (na “quarta dimensão” – onde o tempo é relativo).

O espaço e o tempo do crime ficam em suspenso porque eles existem no mundo intangível das combinações numéricas. Assim, como se estivesse realizando a mais lícita das negociações no mercado digital (como e-bay às avessas) compram-se senhas, códigos e números que existem apenas naquele espaço digital, mas que produzem estragos no mundo físico.

O próprio site que realiza o encontro entre os compradores e vendedores dá garantias da realização do negócio. Isto é, avaliza a negociação entre hackers. Estes paraísos digitais encontram-se localizados em cidades que, muitas vezes, contam com a passividade das autoridades locais que não se interessam com os crimes que serão cometidos com os produtos ali comprados, pois a grande maioria destes crimes será praticada em outros países.”

O livro choca não só pela narrativa dos eventos ligados ao mundo virtual, mas, principalmente, pelo fundamento ideológico que alguns dos criminosos tentam revestir as suas atividades.

Nesse ponto, os criminosos virtuais afirmam que roubam dos bancos, já que o consumidor lesado não arcará com qualquer ônus decorrente do gasto indevido do seu cartão ou do desvio de verbas da sua conta. Tais débitos serão suportados pelas instituições financeiras.

O discurso é perverso e induz os desavisados – lembremos que a internet é o mundo novo de jovens ainda em processo de formação de caráter – a acreditar que estão diante de verdadeiros Robin Hoods. Esquecem-se, porém, que tais prejuízos serão necessariamente repassados aos consumidores.

É bom afirmar, desde logo, que os chamados “bandidos sociais” – para usar expressão de Hobsbawm – em pouco se diferenciam dos ditos bandidos comuns. Dos famosos bandidos sociais (El Cid, Lampião, etc.), poucos visavam a  uma  melhora na vida da sociedade (no caso, dos camponeses). E quase todos eram mais  violentos do que o próprio Estado que combatiam. Assim, a falsa retórica dos hackers assusta, pois induz erroneamente um jovem a achar que “brincar” de roubar virtualmente senhas e repassá-las a terceiro atinge apenas as grandes corporações e que o universo digital lembra um jogo (como os jogos do Playstation, Wii...).

Assusta porque nos faz perceber como estamos reféns de um mundo virtual que é dominado por poucos entendidos. Assusta, ainda, porque são crimes limpos que dificilmente deixam rastros e que ultrapassam as fronteiras dos Estados.

Enfim, não estamos longe das realidades pensadas por Asinov, Dick e tantos outros. A quarta dimensão já existe. E com ela surgem sociedades criminosas e crimes que ali nascem e atingem o nosso mundo real. Equipar os instrumentos da lei, criar tribunais virtuais mundiais que possam acompanhar este “novo mundo” sem as limitações da vida real são medidas essenciais para que não nos transformemos em personagens de ficção científica que são subjugados pela nova realidade.

 

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AFANASIO JAZADJI - © 2008 - Todos os direitos reservados