Fuma-se 1 tonelada de crack por dia

Produzido até na Amazônia e com métodos rudimentares de refino e distribuição, o crack já consolidou no Brasil uma indústria que movimenta, diariamente, cêrca de R$ 20 milhões. Estimativas da Polícia Federal indicam que no Brasil são consumidos, todos os dias, de 800 quilos a 1,2 tonelada da “pedra”, subproduto da cocaína campeão em viciar rapidamente e mata seu usuário em até 3 anos.

Esses números são conservadores e consideram o universo de 1,2 milhão de usuários de crack no país. Para consolidar pela primeira vez os dados do giro financeiro da pasta-base de cocaína misturada ao bicarbonato de sódio, os especialistas levaram em conta um consumo diário, por usuário, de quatro pedras, sendo que cada uma delas vale R$ 5 nas chamadas “bocas-de-fumo” e “cracolândias” espalhadas nas capitais do Brasil.

Já as ruas e a experiência das clínicas de recuperação indicam que o dependente de crack só para de fumar (ou cachimbar) quando termina o dinheiro ou quando ele atingiu o esgotamento, o que geralmente acontece depois da vigésima dose.

Relatório preliminar produzido pela Federação Nacional dos Policiais Federais e do SindiReceita, indica que o quilo da pasta-base de cocaína produz quatro quilos de crack. E um quilo de crack fabrica quatro mil pedras, cada uma delas com 240 miligramas, em média.

Como se vê, o levantamento também acaba com a falsa ideia de que o crack é uma droga barata. Não existe o consumo de uma pedra. Há, sim, a dependência de cinco, dez pedras diárias, o que significa que nenhum viciado em crack gasta, por dia, menos de R$ 25.

Segundo o psiquiatra Pablo Roig, diretor da Clínica Greewood, especializada no tratamento de dependentes químicos, o resultado é que seis entre dez usuários de crack cometem algum tipo de crime para obter a droga. Desde o furto de objetos dentro da própria casa, tráfico e até latrocínio. Sem contar o recurso mais recorrente de rapazes e garotas: a prostituição.

E exemplifica o psiquiatra Roig: “Aí, você pensa no custo social. Falando de mais de um milhão de usuários, podemos pensar que temos potencialmente 600 mil criminosos em função da dependência da droga. Imagina o custo que isso tem para a sociedade. O custo social é altíssimo”.

“O estímulo intenso da droga equivale – diz o psiquiatra – a dez vezes a sensação de prazer de uma relação sexual. O efeito é um consumo que foge à racionalidade e aumenta o lucro dos traficantes”.

E a constatação é simples: Os usuários têm gastos importantes. Não é um dia só de uso, são todos os dias. Para os estudiosos da matéria, “Após um tempo, a parte mais primitiva do cérebro prevalece. Ele é um escravo da droga e passa a ter conduta muito próxima da animal”.

O consumo cada vez maior de crack vem sendo abastecido por uma rota pouco usada no passado: a fronteira do Brasil com o Peru, países separados pelo rio Javari, um dos principais afluentes do rio Amazonas.

Segundo a Polícia Federal, a pasta-base está sendo produzida no Peru, em pequenas propriedades. Nesse lado da fronteira, fortaleceu-se uma seita religiosa, cujos membros levaram a coca à região. A pasta-base sai dali, entra no Brasil e se transforma em crack aqui.

O delegado Mauro Spósito, da PF de Manaus, explica que do lado do Alto Solimões, quase no Brasil, as produções de pasta-base já atingiram dez mil hectares, contra 17 mil hectares no Alto Huallaga, principal região produtora do Peru. Para ele, o custo da repressão é o menor de todos, se comparado com o custo social, o prejuízo à força de trabalho e ao sistema de saúde. “O que menos se gasta é em termos de polícia. Imagina os custos hospitalares”, alerta o delegado.

Em países onde já se calculou o custo social do uso de drogas, os números são impressionantes. Canadá, Estados Unidos e Austrália contabilizaram que o gasto com prevenção, repressão e tratamento médico-hospitalar de usuários de drogas varia de 0,5% a 1,3% do Produto Interno Bruto (PIB) desses países. O Brasil que se prepare para mais esse desafio, mesmo porque, por aqui, autoridades ainda batem cabeça para saber quantos são e aonde se encontram todos os usuários do crack...

 

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AFANASIO JAZADJI - © 2008 - Todos os direitos reservados