Alcoólatras morrem antes

Uma pesquisa do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) indica que 17% dos dependentes de álcool morrem após cinco anos de consumo. Essa é uma pequena amostra do poder de destruição da bebida.

É uma das faces sombrias do álcool, cada vez mais exibida para a sociedade, que ainda assim insiste no seu consumo. E alguns ainda o fazem já na tenra idade.

Desastres no trânsito, famílias desestruturadas, empregos perdidos, estudos parados no meio, jovens dependentes e, principalmente, mortes prematuras. Essas são algumas das sequelas  deixadas pelas bebidas alcoólicas ao longo do caminho.

O levantamento da Unifesp indica outro dado relevante e extremamente preocupante: o Grande ABCD (Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul e Diadema) possui os municípios com a maior presença do álcool entre as cidades do Estado. O índice regional foi de 86%, contra 49% da média estadual.

O levantamento foi realizado por meio de enquete enviada às administrações municipais – as sete cidades da região do ABCD responderam – pela Frente Parlamentar de Enfrentamento ao Crack e Outras Drogas da Assembléia Legislativa de São Paulo.

Essa constatação mostra que o problema do consumo do álcool é preocupante. Está muito alto e medidas precisam  ser  tomadas. Na  verdade,  o  álcool tem que parar de ser visto como droga inofensiva. 

Segundo Cibele Neder, coordenadora do Programa de Saúde Mental de Diadema, “O alcoolismo age de forma mais lenta do que o crack, mas altamente destruidor. Em nossas clínicas, a maioria dos nossos pacientes é dependente do álcool”.

A pesquisa da Unifesp acompanhou, durante cinco anos, 232 pessoas. No total, 41 dependentes de álcool morreram, sendo 66% devido a doenças provocadas pelo alcoolismo e 34% por acidentes de carro ou homicídios.

“O álcool é uma droga socialmente aceitável. Ele está associado ao poder, festa, imagens positivas. Essa visão precisa ser alterada”, avalia Marcelo Iampolsky, professor de Hebiatria da Faculdade de Medicina do ABC.

Outro fator preocupante são os acidentes de trânsito. Cada vez mais a combinação bebida e volante se torna explosiva. Entre janeiro a julho, no Grande ABCD, 85 pessoas perderam a vida em desastres automobilísticos, seja em colisões e atropelamentos, e outras 3.540 sofreram lesões corporais, segundo números da Secretaria da Segurança Pública.

Nas salas de reuniões da AAA-Associação dos Alcoólicos Anônimos a vergonha e a discriminação são deixadas de lado. O problema de homens, mulheres, jovens, adultos e idosos, é um só: o álcool. Essas pessoas buscam ajuda em 18 grupos do AAA existentes no Grande ABCD.

A garantia do anonimato está em placas espalhadas pelos locais. Uma mensagem informa a seriedade do sigilo em cada grupo com a seguinte frase: “Quem você viu aqui, o que você ouviu aqui, quando você sair daqui, deixe que fique aqui”.

As salas abrem diariamente e os encontros duram cerca de duas horas, com intervalo para o café. Os participantes precisam seguir a doutrina dos 12 passos. “Na filosofia, é a mudança do comportamento. Visamos apenas o bem das pessoas e não forçamos ninguém a nada”, explica Divino Espiridião, de 67 anos, um dos coordenadores.

As reuniões ocorrem com os relatos dos presentes. Cada um que se sentir à vontade se levanta, caminha até a frente e tem direito a falar por dez minutos. Muitos passam do tempo e são interrompidos por uma campainha. Os relatos são geralmente trágicos. São homens e mulheres que chegaram ao fundo do poço, devido ao uso abusivo do álcool.

A seriedade do trabalho e o resultado obtido pelas AAA são reconhecidos por médicos e psiquiatras de expressão e deveriam se reproduzir em todos os municípios. E não há para eles nenhuma ajuda oficial.

         

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AFANASIO JAZADJI - © 2008 - Todos os direitos reservados