Pinçando Dráuzio Varella

Países como a Suíça, que permitiam o uso livre de drogas dos mais variados tipos e causadores dos mais diferentes e terríveis efeitos em espaços públicos, abandonaram essa prática ao perceber que a mortalidade entre os usuários aumentava.

As reflexões ou até mesmo constatações do veterano repórter de polícia talvez não cale tão fundo na mente dos que, infelizmente, são presas do vício, razão porque, tomo a liberdade de pinçar alguns trechos do artigo “Craqueiros e craqueiras” do renomado médico e professor, e, agora, também apresentador de TV, dr. Dráuzio Varella.

Começa ele: “A contragosto, sou daqueles a favor da internação compulsória dos dependentes de crack”.

E prossegue: “Peço a você, leitor apressado, que me deixe explicar, antes de me xingar de fascista, de me acusar de defensor dos hospícios medievais ou de se referir à minha progenitora sem o devido respeito”.

“A epidemia de crack partiu dos grandes centros urbanos, e chegou às cidades pequenas; difícil encontrar um lugarejo livre dessa praga. Embora todos concordem que é preciso combatê-la, até aqui fomos incapazes de elaborar uma estratégia nacional destinada a recuperar os usuários e reintegrá-los à sociedade”.

“De acordo com a legislação atual, o dependente só pode ser internado por iniciativa própria. Tudo bem, parece democrático  respeitar  a  vontade  do cidadão que prefere viver na rua do que ser levado para onde não deseja ir. No caso de quem fuma crack, no entanto, o que parece certo talvez não o seja”.

E continua o dr. Dráuzio: “No crack, como em outras drogas inaladas, a absorção no interior dos alvéolos pulmonares é muito rápida: do cachimbo ao cérebro a cocaína tragada leva de seis a dez segundos. Essa ação quase instantânea provoca uma onda de prazer avassalador, mas de curta duração, combinação de características que aprisiona o usuário nas garras do traficante”.

“Como a repetição do uso de qualquer droga psicoativa induz tolerância, o barato se torna cada vez menos intenso e mais fugaz. Paradoxalmente, entretanto, os circuitos cerebrais que nos incitam à buscar as sensações agradáveis que o corpo já experimentou permanecem ativados, instigando o usuário a fumar a pedra seguinte, mesmo que a recompensa seja ínfima. Mesmo que desperte a paranoia persecutória de imaginar que os inimigos entrarão por baixo da porta”...

...”Veja a hipocrisia: não podemos interná-lo contra a vontade, mas devemos mandá-lo para a cadeia assim que roubar o primeiro transeunte”.

“A facção que domina a maioria dos presídios de São Paulo proíbe o uso de crack: prejudica os negócios. O preso que for surpreendido fumando apanha de pau; aquele que traficar morre. Com leis tão persuasivas, o crack foi banido: craqueiros e craqueiras presos que se curem da dependência por conta própria”.

“Não  seria  mais  sensato   construirmos   clínicas  pelo  País  inteiro  com pessoal treinado para lidar com dependentes? Não sairia mais em conta do que arcar com os custos materiais e sociais da epidemia?”

“Nós convivemos com cracolândias a céu aberto sem poder internar seus habitantes para tratá-los, mas exigimos que a Polícia os prenda quando nos incomodam. Existe estratégia mais estúpida?”

E conclui seu artigo o brilhante professor e comunicador: “Faço uma pergunta a você, leitor, que discordou de tudo o que acabo de dizer: Se fosse seu filho, você o deixaria de cobertorzinho nas costas dormindo na sarjeta?”

Dráuzio Varella matou a pau. Não é a sociedade que é hipócrita. Absolutamente. Neste caso, as autoridades é que são, rigorosamente incompetentes e despreparadas, não obstante tenham milhões de reais disponibilizados para combater o mal e tratar desses doentes. Se não o fazem, só podemos ou somos levados a pensar que há quem esteja faturando altíssimo com isso.

         

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AFANASIO JAZADJI - © 2008 - Todos os direitos reservados