Vergonha na cara, gente!

Desculpe, mas não vou mencionar números, índices, estatísticas, já que as da nossa Segurança Pública – com raríssimas exceções – também sofrem maquiagem e das brabas... O que me causa espanto é a cara de pau de algumas autoridades que vem a público festejar a diminuição dos números de homicídios e, no finalzinho, relatam que está explodindo o número de latrocínios...

Ora, tem louco fora da camisa de força! Soltar fogos e comemorar a baixa no número de homicídios é de uma estupidez lapidar. Mesmo porque, homicídio é o tipo de crime, ou modalidade penal tecnicamente falando, difícil ou quase impossível de se prevenir. Portanto, não existe aí absolutamente nada para se elogiar a autoridade pública. A incoerência é total.

Como evitar que um namorado traído ou esposa mais voluntariosa pratiquem um crime contra o outro. Pode acontecer dentro de casa, num quarto de motel, numa porta de fábrica ou dentro de um escritório. Impossível de se evitar. Não dá para o agente público penetrar na cabeça do indivíduo e descobrir o que ele pensa ou o que matutou fazer de mal, de ruim.

Agora, quanto ao crime de latrocínio, que é o roubo seguido de morte, êpa, a responsabilidade é total da segurança pública, sim. Quando assassinato por causa de roubo, significa que o Estado pecou, errou, falou grosseiramente. Por falta de estrutura, de policiais na  rua, por  incompetência. O latrocínio, sim, é crime perfeitamente previsível e poderia ser impedido, preservando-se a vida de um ser prestante, da pessoa que teve sua vida ceifada por ladrão, dentro de casa, em um estabelecimento comercial, na rua, na saidinha de banco. Quando ocorre o latrocínio houve a falha da polícia. Ou a falta dela.

Nossas autoridades deveriam ter vergonha de distribuir comunicados à população com números estapafúrdios, assustadores e, ao final, lamentar ou alardearem promessas que nunca são cumpridas. Isso, sim, afirmo ser crime de lesa-sociedade.

Enquanto deputado à Assembléia Legislativa, ajudei a elaborar o projeto de lei que, depois aprovado e sancionado pelo Executivo, obriga que a cada três meses seja publicado no Diário Oficial do Estado a estatística criminal de São Paulo. Tudo tem sua razão de ser, e isso também.

Foi necessário que os deputados da Comissão de Segurança Pública da Assembléia, que eu presidia, se unissem e exigissem do governo tucano uma posição mais séria e respeitosa, porque até então a Secretaria da Segurança Pública distorcia números, ocultando ocorrências sérias, para dar a falsa sensação de segurança aos paulistas. Vou explicar.

Anos atrás, quando alguém ia a uma delegacia reclamar do furto de sua carteira com documentos, a equipe de plantão elaborava o que chamávamos de “papel de bala”, que era um insignificante  folheto de  extravio de  documentos. O incauto saía  da repartição policial pensando que tivesse registrado o furto, mas era mentira. A fajuta anotação do extravio, como não queria dizer absolutamente nada, não somava na relação de furtos ou roubos. E com isso, um crime a menos era registrado e deixava de constar como mais um crime contra o patrimônio naquela região.

A estatística era enganosa, para não dizer totalmente mentirosa, pois embora meliantes daquela modalidade estivessem agindo em determinada área, bairro ou região, nada constava oficialmente para os órgãos de controle da própria Polícia, e o combate à delinquência continuava empírico, sem nexo. Sem falar que chacina de duas ou dez pessoas constava oficialmente apenas como “um” homicídio a mais.

Por conta dessas disparidades, tapeações e safadezas oficiais, foi que, como deputados, exigimos que de três em três meses o governo publique oficialmente seus números. Mas que sejam exatos, corretos. Tanto para ajudar a boa Polícia no combate à criminalidade, como ao próprio governo no direcionamento de suas compras de equipamentos, viaturas e contratação de mais policiais.

Mesmo com tudo isso, dá para perceber que os governos tucanos ainda não aprenderam a lidar com a verdade dos fatos. Para a política de segurança deles, com as mentiras que apregoam, descaradamente, eles fingem que muito fazem em prol da segurança da população, e de outro lado a comunidade faz de conta que acredita nos números que lê de suas estatísticas.

E enquanto isso, pessoas de bem vão sendo mortas, abatidas em casa, no trabalho,  nas  ruas,  nas  saídas  de  bancos,  dentro  de  restaurantes.  Isso  não  pode continuar. Acima de tudo, falta muita vergonha na cara!

                             

 

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AFANASIO JAZADJI - © 2008 - Todos os direitos reservados