Ainda o massacre na escola

O lamentável ocorrido na escola municipal fluminense ainda provoca as mais variadas reações nas pessoas. Principalmente manifestações estapafúrdias dos palpiteiros de ocasião, os tais formuladores de teses as mais absurdas, tentando explicar o gesto do assassino Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos.

Ainda no dia do fatídico massacre, começaram a surgir até autoridades públicas propalando pela retomada da campanha do desarmamento da população, como se isso fosse a solução e, particularmente, a culpada pelo triste acontecimento.

No calor das primeiras providências, falaram, mostraram e escreveram de tudo. De forma precipitada e inconsequente. Quase tal qual o assassinato em série, um bando de profissionais, amadores e aspirantes a comentaristas muito mais levaram o desassossego em alguns veículos de comunicação do que a informação isenta.

Alguns desavisados, em programas de TV, começaram a culpar o “excesso de religião”. Houve quem acusasse o “uso exagerado da internet” pelo autor do massacre. Outros exigiam respostas das autoridades policiais quanto à escola de tiro em que ele praticara pontaria.

Não faltaram, como sempre, políticos oportunistas, inclusive ministros cujas áreas de atuação nada tinham a ver com educação e segurança pública, que foram fazer um passeio pela escola e hospitais, apenas e tão-somente para aparecerem em imagens de TV, fotos de jornais ou serem lembrados para entrevistas nas rádios. E muitas lágrimas forçadas jorraram de alguns. Vergonhoso!

Manifestação que considerei mais coerente nos dois primeiros dias foi do presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), doutor Antonio Geraldo da Silva. Com muito profissionalismo e ponderação ele disse que o atirador “provavelmente sofria de transtorno de personalidade e não de doença mental”.

Tecnicamente, doutor Geraldo da Silva explicou a diferença: “É um tipo de comportamento chamado em inglês de ‘mass murder’, ou seja, assassino em massa. Geralmente são indivíduos entre 20 e 30 anos, solitários, que não param em emprego, com poucos laços com família, amigos e vizinhança”.

Ressaltou ainda o psiquiatra que “é difícil dizer qual seria esse transtorno: paranoide, esquizoide, bordeline, narcisista, histriônico, obsessivo compulsivo ou antissocial”.

Mas as especulações, palpites em exagero e chutes à vontade continuaram. E a palavra da vez era “apertar o desarmamento da população”. Como se só isso, se ocorresse de verdade, seria suficiente para aplacar situações como aquela. De pouco ou nada adiantam as comparações como ocorrências havidas nos Estados Unidos, no Japão e em outras partes, com aparentemente malucos também invadindo escolas e atirando até com rifles e metralhadoras.

Que os insensatos tentem compreender: se Wellington era como dizem até seus familiares, vizinhos e ex-colegas de escola, ele praticaria aqueles atos terríveis mesmo se não tivesse revólveres e farta munição ao seu alcance.

São inúmeros os casos, inclusive aqui no Brasil, de pessoas com mentes doentias que atacaram familiares dormindo usando marretas, martelos, picaretas, foices e até mesmo facas de cozinha. E nem por isso essas ferramentas e instrumentos de uso diário e caseiro foram proibidos.

Cá entre nós: erros médicos continuam acontecendo, vitimando fatalmente pessoas, e nem assim pensou-se em cancelar os procedimentos cirúrgicos. Acidentes de trânsito, no Brasil, matam mais do que as guerras, e tampouco foi ventilado parar com a fabricação de veículos.

Todos sentimos e muito o lamentável ocorrido. Que ele jamais se repita. Mas um pingo de juízo deve prevalecer nas cabecinhas de algumas figuras públicas. Transformar nossas escolas em prisões é que não é possível. Exigir um policial armado à porta de cada uma, com detector de metais, também é ridículo e impróprio. Como sempre, o tempo será o Senhor da razão. Que a poeira baixe e devolva as coisas ao seu lugar...

 

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AFANASIO JAZADJI - © 2008 - Todos os direitos reservados