Autoridades espionadas

É de causar um verdadeiro surto de gargalhadas a indignação do governador Alckmin e de seu secretário da Segurança Pública, Ferreira Pinto, ao denunciarem à imprensa que estaria havendo por parte de alguns membros da Polícia Civil paulista, “espionagem” de seus passos.

A prática teria provocado a queda do diretor do DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa), Marco Desgualdo, que, por sinal, foi homem de extrema confiança do governador tucano, tendo inclusive servido de seu Delegado-Geral, quer dizer, chefe da Polícia Civil, em seu mandato anterior.

Ferreira Pinto, para quem não sabe, antes de ingressar no Ministério Público, de se tornar Promotor de Justiça, funcionou por bons anos como Oficial da corporação de Tobias de Aguiar, a Polícia Militar de nosso Estado. Foi, portanto, um policial militar de carreira. E, antes de ocupar a atual cadeira de secretário de estado da Segurança, foi secretário de Administração Penitenciária, tendo assumido em 2006, no lugar do ex-juiz de Direito Furukawa, que caiu depois das investidas do Primeiro Comando da Capital (PCC), em maio daquele ano, que culminaram com mais de quinhentas mortes em São Paulo, de policiais, agentes penitenciários, de muitos bandidos e outros supostos de o serem.

O secretário Ferreira Pinto, como se vê, é pessoa do ramo como se diz e não deveria estar tão espantado e muito menos demonstrar surpresa pelo fato de ter a filmagem   de    sua    presença    num    shopping    conhecido   da   Capital   divulgada, principalmente depois de se encontrar com um repórter a quem teria entregue informações para “queimar” um graduado servidor da pasta da Segurança, que estaria vendendo informações confidenciais a particulares sobre a incidência criminal entre nós.

Repare só: até mesmo antigos combatentes de grupos guerrilheiros que hoje chegaram ao poder, em diferentes níveis, só se consideram “autoridades” para valer se tiverem ao seu lado, como ajudantes de ordens, carregadores de suas pastas ou até mesmo para sua segurança pessoal, policiais militares à paisana, disfarçados, vestidos com roupas comuns.

Eles escolhem ou confiam a pessoas de seu restrito círculo de amizade para que façam a escolha desses “guarda-roupas” para protegê-los e aos seus familiares. E não são poucos os filhos de autoridades que se esmeram em dar trabalho à sua segurança, arrumando encrencas em boates, portas de escola e até em campos de futebol, sabendo que têm o respaldo de policiais profissionais, pagos com o dinheiro público, para defender suas peles.

Houve tempo em que, no Palácio dos Bandeirantes (casa do governador de plantão) do cozinheiro, garçon ao ascensorista, eram todos integrantes da Polícia Militar. Só mesmo alguns governantes incautos acreditavam que eles estavam lá em devotamento ao mandatário máximo do Estado, talvez até pela sua afinidade ideológica. Quanta ingenuidade !                          

Estavam lá, sim, destacados como muitos estão até hoje, devidamente selecionados, verdadeiramente escolhidos à dedo e a serviço da corporação, sendo obrigados a fazer seus relatórios, por escrito ou verbais, aos responsáveis pelas áreas de informação da milícia paulista, particularmente à 2ª Seção, que é o Serviço Secreto da PM.

Isso tudo quer dizer o seguinte: nenhum funcionário público, por mais graduado que seja, está isento de ser vigiado, fiscalizado. Nada em detrimento dele, não, mas sim pela segurança maior do Estado, do poder que ele representa. Até mesmo o Governador e seus secretários e dirigentes de empresas estatais.

Tanto se ouve e se repete com insistência, que a autoridade pública deve dar exemplos. Bons exemplos. Que não pode cometer gafes e jamais colocar em risco o que ela representa. E que seus familiares tem de ter, sim, comportamento condigno do cargo que a autoridade exerce e por tudo o que seus familiares desfrutam.

O secretário Ferreira Pinto jamais poderia se considerar espionado. Estava, isto sim, sendo acompanhado pari-passu pelo o que ele é e pelo o que ele representa. Se estava fazendo coisa errada, ou se não quisesse ser visto, que agisse de outra forma. Quanto ao Sr. Governador, todos temos o direito de tê-lo em alta conta e a polícia está aí para garantir isso...

 

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AFANASIO JAZADJI - © 2008 - Todos os direitos reservados