O crack se espalha

O consumo do crack já se disseminou por todas as regiões do País, expandido-se dos grandes centros urbanos para as cidades de pequeno e médio portes e até para as zonas rurais. A constatação foi feita em mais de 3,8 mil dos 5,5 mil municípios brasileiros com graves problemas de segurança pública, saúde e assistência social decorrentes do uso da droga.

A tendência desse quadro é só se agravar mais em vista de mais de 90% das nossas prefeituras não disporem de condições técnicas e muito menos financeiras de implementar programas de prevenção destinados a jovens e adolescentes. As estimativas nada animadoras são de que o consumo do crack leve, nos próximos seis anos, mais de 300 mil de usuários à morte.

Esses dados foram divulgados pela Confederação Nacional de Municípios (CNM), com base em estudo de amplitude nacional. “O Brasil não tem nenhuma política de enfrentamento ao crack, seja por parte dos municípios, Estados ou União. Fizemos um grande esforço para a redução da mortalidade infantil, mas não existe nada que combata a mortalidade juvenil. Estamos salvando nossas crianças, deixando-as morrer na juventude”, declarou Paulo Ziulkoski, presidente da CNM.

Por outro lado, autoridades do governo federal questionam a validade dessa pesquisa, alegando que ela teria sido realizada sem respeitar padrões metodológicos comuns aos trabalhos acadêmicos e aos levantamentos estatísticos. “Se fizermos um estudo epidemiológico, não vamos encontrar nenhum  município  sem problemas com crack. Agora, há lugares com consumo maior e outros com consumo menor”, minimizou Paulina Duarte, secretária-adjunta da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad).

Preciosismos à parte, na realidade a pesquisa da CNM apresenta números preocupantes, que dão a dimensão do crescimento do número de viciados no crack e mostram que o Plano Integrado de Enfrentamento ao Crack e outras Drogas, lançado em maio passado como bandeira da campanha eleitoral de Dilma Rousseff, não trouxe os resultados anunciados. O plano prometia distribuição de recursos federais, por meio de convênios entre a União e as prefeituras.

Segundo ainda o levantamento da CNM, em seus sete meses de vigência, apenas 3,39% dos municípios se dispuseram a assiná-lo. Além de reclamar do excesso de exigências burocráticas para ter acesso ao dinheiro, o presidente da entidade lembra que só as cidades com mais de 20 mil habitantes podem ser beneficiadas. Ele também afirmou que dos R$ 410 milhões previstos para 2010, a 15 dias do término do ano, o governo liberou somente R$ 285 milhões.

Ainda pela pesquisa da CNM, a maioria dos 333 municípios que implementam políticas de prevenção e promovem campanhas de orientação, instalando Centros de Atenção Psicossocial e firmando acordos com ONGs e entidades comunitárias que ajudam na recuperação e ressocialização de viciados, financia suas ações com recursos próprios ou com a ajuda de governos estaduais.

A cúpula da Senad refuta as críticas, afirmando que o órgão já destinou R$ 73 milhões para abertura de leitos em hospitais e comunidades terapêuticas, a criação de Núcleos de Apoio à Saúde da Família e a capacitação de agentes que atuam nas redes assistenciais de atendimento aos usuários de drogas.

O levantamento da CNM mostra justamente o oposto, ou seja, as dificuldades que o governo federal vem enfrentando para tentar introduzir políticas de prevenção mais eficientes e articuladas com os governos estaduais e municipais.

Durante o período eleitoral, a então candidata Dilma afirmou que uma das prioridades de seu governo seria conter o avanço do crack. A pesquisa da CNM deixa muito claro que não será com base na política da Senad que ela conseguirá cumprir a promessa que fez. Que os planos sejam rediscutidos e reimplantados para surtirem os efeitos esperados pela população.

 

 

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AFANASIO JAZADJI - © 2008 - Todos os direitos reservados