Rio: os motivos da invasão

Para muita gente ainda não está muito bem claro porque razão o poder público, depois de quase 20 anos de dominação do narcotráfico sobre a população fluminense, resolveu subir o Complexo do Alemão e desalojar bandidos e devolver todo o espaço à comunidade. Por quê agora?

Como em toda guerra de que preze, a primeira vítima sempre é a verdade. Várias são as teorias sobre o que aconteceu no Rio de Janeiro em fins de novembro:

Primeiro, o governo federal teria recebido pressão da Igreja Católica, diretamente do Vaticano, porque criminosos ocupavam a Igreja Da Penha como “posto de observação” para detectar a chegada de policiais a favelas que se encontram ao seu redor. O arcebispo do Rio, dom Orani Tempesta teria se escandalizado ao denunciar que os bandidos entravam e saiam da igreja, até mesmo nas horas em que eram rezadas missas, ostentando fuzis e metralhadoras.

Há quem afirme que, a pedido da FIFA (Fédération Internacionale de Football Association) agentes da Interpol estiveram em setembro no Rio a fim de analisar o estado de violência enfrentado pela população e turistas, para que a entidade, até o final deste ano, fizesse bombástica declaração desistindo de realizar a Copa do Mundo de Futebol de 2014 entre nós.

Implausível, também, a explicação de que os bandidos estavam retaliando por causa das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadoras). Essa justificativa não se sustenta, pois no Rio existem 1.020 favelas  e  só  foram  instaladas  UPPs em 13 delas. Portanto, não falta território livre para o tráfico.

Alguns serviços de inteligência daqui e do exterior têm informações seguras de que a onda de violência no Rio de Janeiro resultou de um impasse nas negociações financeiras entre policiais e políticos corruptos e representantes de chefes de quadrilhas.

Qualquer motivo acima elencado mancharia o final de governo do presidente Lula e o início da gestão de sua pupila Dilma Roussef. Então, o próprio Lula, depois de conversar pessoalmente com os comandantes da Marinha, Exército e Aeronáutica, resolveu dar início à operação armada.

É bom que se diga que Lula nem tomou conhecimento do ministro da Defesa, Nelson Jobim, e muito menos do governador Sérgio Cabral. Tudo acertado com os três comandantes militares, estabelecidos os mínimos detalhes da operação e da hierarquia, na segunda-feira, dia 22 de novembro, Lula telefonou para Cabral comunicando o que ficara decidido, estabelecido, coordenado por ele, comandante-em-chefe das Forças Armadas.

Cabral tomou um susto, pois a “inteligência” não o informara de coisa alguma. Lula, junto com assessores, fazia questão de repetir as mesmas exclamações dos moradores: “Não aguento mais o domínio desses traficantes. Será o grande presente para a população do Rio, que vem sofrendo e sendo castigada por dezenas de anos”.

O presidente cumpriu inteiramente o que planejara, e as Forças Armadas executaram. As declarações mentirosas de Cabral, de que pediu ajuda para acabar com os traficantes, provocaram gargalhadas em Brasília até nas carpas do Lago Paranoá.

Muita coisa precisa ser explicada à população. Até agora não sei dizer se foi por esquecimento premeditado ou puro equívoco: não confere a informação de que vivem no Complexo do Alemão cerca de 400 mil pessoas em 13 mil residências. Aritmética e socialmente, seriam 31 habitantes por cada casa de favelado. Mesmo para esse tipo de “moradia e moradores”, soa esquisito para não dizer impossível...

Cadê, afinal, os barões do narcotráfico? Só foram pegos pés-de-chinelo, e muitos por terem sido entregues pela própria família. Invasão com dia e hora anunciados chega a ser risível. Tudo concentrado no Alemão, mas o tráfico continua correndo solto nos demais pontos da cidade outrora maravilhosa.

Voltarei ao assunto, sempre em busca da verdade-verdadeira.

 

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AFANASIO JAZADJI - © 2008 - Todos os direitos reservados