As rotas do tráfico

Relatório divulgado pela ONU (Organização das Nações Unidas) indica que países como o Brasil se consolidaram como caminho de exportação de tóxicos. A variedade de drogas à venda no mundo só cresce, a estrutura do tráfico se complexifica e, por onde estende os seus tentáculos, alimenta conflitos.

Informações do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) mostram que, apesar dos esforços do planeta, recentes mudanças na produção, no comércio e no perfil de consumo dos entorpecentes aumentaram os desafios dos governos na área.

Enquanto a cocaína perdeu espaço nos Estados Unidos – seu principal mercado -, na Europa o número de usuários dobrou. O pó já movimenta US$ 34 bilhões anuais no Velho Continente, ante US$ 37 bilhões nos EUA. Países da África e da América do Sul, como o Brasil, se consolidaram como rota de exportação para nações como Inglaterra, Itália e Espanha, o que tem impactado as suas estatísticas de violência.

Em todo o mundo, é crescente a demanda por substâncias sintéticas, como as anfetaminas e o ecstasy, de mais difícil repressão. Conforme o relatório, cada vez menos adultos americanos usam cocaína. Somente entre 2007 e 2008, o número caiu de 9,6 milhões para nove milhões.

O combate aos cartéis de droga na Colômbia, maior produtor mundial, favoreceu a reviravolta nos Estados Unidos. Contudo, obrigou  o  tráfico  a  diversificar  suas rotas. Se antes a exportação era praticamente direta, pelo Pacífico ou Golfo do México, agora os chamados países de trânsito ganharam importância estratégica. Antes de seguirem para os EUA, o pó e sua pasta base fazem escalas no Brasil ou Venezuela. A rota europeia inclui países do Sul e do Oeste africanos.

De acordo ainda com o relatório, 51% dos carregamentos de drogas enviados da América do Sul para a Europa pelo mar partem da Venezuela. O Brasil responde por 10%. Esse fluxo tem efeitos perversos para os países. Na Venezuela, as estatísticas de homicídios explodiram. Para a ONU, é preocupante a atuação de organizações semelhantes às Farc (Forças Armadas Revolucionárias Colombianas) no país de Hugo Chávez, como a Frente Bolivariana de Libertação.

“Esses grupos têm sido efetivamente cooptados pelo governo, mas mantêm células armadas, inclusive ao longo das fronteiras com a Colômbia, Equador e Brasil. O governo também começou a armar e a apoiar milícias civis (a reserva nacional). Esse tipo de movimento pode abastecer o crime organizado”, descreve o relatório.

No México, a onda crescente de violência – acrescenta o estudo – está relacionada à disputa dos cartéis por um mercado que vivia de abastecer os Estados Unidos, mas vem encolhendo. Na África, florestas têm sido desmatadas para dar lugar ao plantio de coca. Apesar disso, a área global do cultivo encolheu 5%.

Para a nossa Polícia Federal e a Secretaria Nacional de  Segurança Pública  (Senasp), o fato de o Brasil fazer fronteira com os maiores produtores de coca do mundo – Colômbia, Peru e Bolívia – e sua extensão territorial favorecem a consolidação das rotas. Porém, o número de apreensões aumentou 21% de 2007 para 2008.

Esse relatório sobre drogas também mostra que já há no mundo entre 30 milhões e 40 milhões de usuários de anfetaminas. Preocupa tanto o uso das produzidas clandestinamente quanto as vendidas em farmácias, a exemplo dos emagrecedores.

No Brasil, 0,7% da população entre 12 e 65 anos consome esses comprimidos, o maior percentual da América do Sul. No caso do ecstasy, o percentual é de 0,2%, bem menor que o de países como a Argentina (0,5%), mas há risco de expansão. O Brasil pode passar de importador a produtor e exportador.

Entre os menores de 18 anos, 80% afirmaram ter consumido álcool. Dos dezoito mil ouvidos, 41% declararam ter se testado para o HIV e 8% das entrevistadas fizeram ou induziram ao aborto.

       

   

 

   

 

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AFANASIO JAZADJI - © 2008 - Todos os direitos reservados