A falácia da "pacificação"

Em dezembro do ano passado, o sempre bem informado jornalista Hélio Fernandes, da “Tribuna da Imprensa” carioca publicou em seu Blog um importante artigo de denúncia, mostrando que a política de “pacificação” das favelas do Rio de Janeiro pelo governador Sérgio Cabral “não passa de uma manobra eleitoreira que inclui um incrível e espantoso acordo entre as autoridades estaduais e os traficantes que atuavam (e continuam atuando) nessas comunidades carentes”.

De acordo com a matéria do corajoso repórter, “o acordo está ‘firmado’ sob as seguintes cláusulas: 1 – Os traficantes somem com as armas da favela, com os ‘soldados’ de máscaras ninjas, com os olheiros e tudo o mais; 2 – A PM entra na favela, sem enfrentar resistência, ocupa os pontos que bem entender, mas não invade nenhuma casa, nenhum barraco, e não prende ninguém, pois não ‘acha’ traficantes ou criminosos; 3 – A favela é tida como ‘pacificada’, não existem mais marginais circulando armados, os moradores não sofrem mais intimidações, não há mais balas perdidas, e 4 – Em compensação, o tráfico fica liberado, desde que feito discretamente, sem muita movimentação.”

Até o Blog do Hélio Fernandes publicar esses artigos, ninguém havia tocado no assunto. A implantação das chamadas UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) vinha sendo saudada pela imprensa escrita, falada e televisada como uma espécie de panacéia na segurança pública fluminense. Era como se, de súbito, as autoridades  estaduais  e  municipais   tivessem  conseguido  “colocar  o  ovo  em  pé”, resolvendo de uma hora para outra o maior problema da atualidade: a violência e o tráfico de drogas nos guetos das grandes cidades.

Segundo ainda Fernandes, “não há dúvida de que esse é um dos maiores desafios da humanidade. Como todos sabem, em praticamente todos os países do mundo, governantes e autoridades da segurança pública continuam sem saber como enfrentar e vencer o problema da criminalidade e do tráfico. Menos no Rio de Janeiro. Aqui – prossegue Hélio Fernandes – houve uma espécie de “abracadabra”, um toque de varinha de condão, e num passe de mágica, as favelas foram “pacificadas”. Que maravilha viver.

O mais interessante: não foi disparado um único e escasso tiro, os traficantes e ‘donos’ das favelas não lançaram uma só granada, um solitário morteiro, não acionaram seus lança-chamas, seus mísseis portáteis, seus rifles AR-15 e M-16, suas submetralhadoras Uzi. Nada, nada.”

No artigo-denúncia do final de dezembro e nos outros que se seguiram em janeiro, o articulista do Blog da Tribuna da Imprensa ainda chamou a atenção para um outro fato espantoso: ninguém reparou que a tal “pacificação” foi fácil demais, não houve uma só troca de tiros ?

Ele complementa: “O pior foi a atitude do governador Cabralzinho, que deve pensar (?) que os demais cidadãos são todos imbecis e aceitam qualquer ‘explicação’ que lhes seja fornecida pelas autoridades. Recordemos que  foi  ele  quem   teve a ousadia e a desfaçatez de vir a público e proclamar, textualmente: ‘DEI PRAZO DE 48 HORAS PARA OS TRAFICANTES DEIXAREM O CANTAGALO-PAVÃO-PAVÃOZINHO’.”

E o mais que octogenário Hélio Fernandes ainda desafia: “Como é que é? O governador esteve com os traficantes, ‘cara-a-cara’, e fez o ultimato? Ou mandou recado por algum amigo comum? Como foi o procedimento? Ninguém sabe.”

“O que se sabe é que o governador alardeava (e continua alardeando) que, em todas as favelas onde a Polícia Militar instalou as UPPs, os traficantes e criminosos simplesmente sumiram, assustados, amedrontados, apavorados.”

O dono da histórica “Tribuna da Imprensa” sintetiza: “Quando escrevi a série de artigos desmascarando a “pacificação das favelas”, houve tremenda repercussão. Mas a maioria das pessoas se recusava a acreditar. Não podiam aceitar que um governante descesse a nível tão baixo, criasse tão estarrecedora mistificação, tentasse manipular tão audaciosamente os eleitores.” Não me canso de homenagear o velho Hélio pela sua coragem, dedicação ao jornalismo e altíssimo espírito público.   

 

   

 

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AFANASIO JAZADJI - © 2008 - Todos os direitos reservados