Presídios em alto mar

Bom seria se o mundo não precisasse construir penitenciárias. Talvez teríamos muito mais escolas, hospitais, creches... Pura utopia. Desde que o mundo é mundo, o ser humano não consegue sobreviver em harmonia. Como se diz popularmente, sempre existirão os bons e os maus. Pior, existem os péssimos.

Alguns costumam falar do absurdo da construção de penitenciárias em cidades de grande população e até mesmo nas capitais. É evidente que essas penitenciárias, sempre com nomes de grandes personalidades, são necessárias, até indispensáveis. As populações crescem e o número de criminosos também. Este não é um fenômeno brasileiro e sim universal.

Costumo dizer que prisões não “regeneram” ninguém. Na verdade, elas dão aos criminosos a competência ou a experiência que lhes faltava. Grande parte dos prisioneiros saem mais perigosos com o tratamento recebido. É muito ingênuo esperar que o bandido entre por uma porta como cidadão abominável e saia por outra, anos depois, como se fora um singelo franciscano.

Se cadeia fosse boa mesmo, se corrigisse alguém, se mudasse para melhor uma pessoa, pais e mães correriam para entrar em fila e matricularem ali seus filhos, muitos rebeldes, insensatos e demoníacos desde tenra idade. A realidade é outra e precisa ser encarada de frente.

Não tem erro: quanto mais penitenciárias são construídas, mais se comprova  a   necessidade   de  outras  e  muitas  mais.  Nos  grandes  e  até  pequenos centros, as populações se enclausuram, não por vontade e sim por necessidade. Não existem mais apartamentos ou casas sem grades, alarmes e cães ferozes. Tudo por conta da insegurança que domina tudo e a todos. E isso por causa da incapacidade dos governos de combater e eliminar o que chamam de “poder paralelo”.

As populações que moram perto (e às vezes ao lado dessas penitenciárias) têm prejuízos não só físicos, com medo até de sair de casa, mas também materiais. Suas propriedades se desvalorizam, não podem ser vendidas e nem trocadas. As “autoridades” deveriam ser responsabilizadas por isso.

Alguns sugerem penitenciárias em distantes ilhas, na selva amazônica, ou em outros locais de difícil acesso, até mesmo utilizando para a comunicação o progresso tecnológico que a cada dia se aprimora. Só que a tecnologia não pode servir ao crime, tem que ser usada para combatê-lo. Todo dia se vê ou se lê, com estarrecimento geral: “Bandidos nas ruas são comandados por criminosos presos em grandes e distantes penitenciárias”. Absurdo total !

Inaceitável, inacreditável, abominável. E, claro que tudo isso se passa com o conhecimento e, às vezes, até conivência, de funcionários e diretores corruptos. Suspeita-se, também, que essas gangues que dominam o sistema prisional, teriam “feito acordo” com as autoridades paulistas, a fim de não promoverem rebeliões. Em troca, “ganharam” a desativação paulatina do maior presídio de segurança máxima de São  Paulo,  no  oeste   do estado.   Vergonhoso e repugnante, se isso realmente aconteceu.  

Infelizmente, a cumplicidade nas prisões é quase obrigatória: os agentes não têm condições de viver, estão sempre mais próximos da morte, e com suas famílias ameaçadas aqui fora. O regime nas prisões é selvagem, cruel, quase invencível.

Há quem defenda as prisões “em alto mar”, bem longe do continente. Para isso seriam utilizados navios. A dificuldade de fuga seria enorme. Alguns repudiam a idéia, pois haveria prejuízo às famílias de presos para suas visitas semanais e transporte de comestíveis, roupas, remédios e, por certo, de entorpecentes e telefones celulares.

O Ministério da Justiça, ainda no primeiro governo Lula, prometeu a construção de onze penitenciárias federais de segurança máxima em diferentes estados. Construiu até agora só três e olhe lá. Nas próximas eleições, uma grande parcela de presos irá votar. Isso mesmo, presidiários poderão escolher também seus representantes. São coisas que a gente sabe como começam, mas jamais como acabam...

  

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AFANASIO JAZADJI - © 2008 - Todos os direitos reservados