Menos corrupção em 2010

 

O estouro de um grande escândalo novamente põe no centro do debate a urgente necessidade de se encontrarem fórmulas de combate às falcatruas com o dinheiro público. A verdade é que a corrupção atinge todos os países. Mas, aqui no Brasil ela ocorre com tal frequência e intensidade que a conclusão mais crível pela população é de que há algo de errado com o funcionamento das instituições.

Nem sempre o diagnóstico é o mais acurado e por vezes desvia o foco do principal. Há muitos anos, a sugestão de uma reforma política vem sendo apontada como a pedra angular, como forma de se criar um círculo vicioso. Bastaria mudar o sistema eleitoral – de preferência aquele que abrisse caminho para a introdução do financiamento público de campanhas – e pronto.

Os representantes saídos das urnas seriam mais probos, eficientes e mais preocupados com o interesse público do que com as demandas paroquiais, ou pior, com o enchimento dos próprios bolsos (e hoje em dia, de meias, cuecas e bolsas femininas de gosto duvidoso)?

Inicialmente defendida por alguns estudiosos e por certos parlamentares bem-intencionados, a bandeira da reforma política no Brasil, curiosamente, passou hoje a ser a bandeira de uma desacreditada classe política. É conveniente, sobretudo, para os enlameados nos esquemas de corrupção.

A proposta funciona como uma autodefesa do tipo: “Não somos nós os culpados, mas o sistema”; “Qualquer um faria o mesmo”. Os argumentos tem  algo  de esperteza também, quando se saque que, diferentemente de outras reformas exigidas, como a tributária, a política já foi votada e rejeitada. O projeto mais elaborado, redigido por uma Comissão Especial instituida em 2003 na Câmara dos Deputados, que consolidou várias propostas que estavam engavetadas na Casa, foi a plenário, em 2007, e perdeu.

As alterações previam a mudança para o sistema de lista fechada, pelo qual os eleitores votariam só nos partidos. Isso possibilitaria a introdução do financiamento público de campanhas, que significaria o desembolso de R$ 7,00 por cidadão para custear a propaganda política.

A questão do financiamento de campanhas tornou-se um ponto nevrálgico no debate da corrupção. Mas é outro assunto coberto por uma cortina de fumaça. Muitos políticos, pegos de calças cheias de dinheiro, justificam o recebimento de propinas, afirmando que são recursos não contabilizados para suas campanhas, os conhecidos “caixa dois”.

As falcatruas são um claro expediente de enriquecimento ilícito, e como tal devem ser atacadas. Mas tudo, nos discursos elaborados por gente muito bem paga, passou a ser um problema de caixa 2, um crime menor, supostamente porque nem todo financiador de campanha quer ter seu nome revelado. É uma baita hipocrisia que parece querer embalar a população numa história da carochinha.

Mas  só   alterando   a   situação   política   nacional   estaríamos  longe  da corrupção? Quem é que dá essa certeza? Só mesmo os políticos é que se locupletam com dinheiro sujo, de procedência duvidosa e até criminosa?

E os membros do Poder Judiciário que vendem sentenças em troca de polpudas somas? Desde juízes de primeira instância até ministros ganharam as manchetes da imprensa. E as negociatas nos finais de campeonatos de futebol, onde “oficializaram” uma tal de mala branca para comprar a consciência e o profissionalismo de jogadores? A corrupção policial já é conhecida há décadas, conspurcando contra a instituição. E os médicos do INSS que forçam o pagamento “por fora” para um tratamento adequado a pessoas simples? E não podemos esquecer da corrupção na área privada, onde vendedores ou compradores de empresas se vendem, comem “bola” em prejuízo de seus patrões?

Como já salientei, a corrupção não é uma exclusividade nossa e nem existe só no meio político. Haveria que se fazer, como se vê, uma reforma social, educacional. Enquanto isso não ocorre, incumbe a quem souber de desvios, denunciar. Se assim fosse, teríamos certeza de que 2010 seria, verdadeiramente, um novo ano, com bem menos corrupção a nos afligir.

 

 

 

 

   

 

 

 

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AFANASIO JAZADJI - © 2008 - Todos os direitos reservados