Segurança privada maior que Polícia

 

 

Impressionante: na ausência do Estado, o verdadeiro exército de vigilantes particulares chega a 450 mil em todo o país, distribuídos em cerca de duas mil empresas regulares, pois existem muitas clandestinas. Para se ter uma idéia do tamanho desse contingente, o número representa 45% a mais do que todo o efetivo da Polícia Militar em todos os estados do Brasil, onde as corporações, somadas, alcançam 310 mil PMs.

Esse levantamento da Polícia Federal, divulgado pela Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, em Brasília, revela um estrondoso crescimento da segurança privada no país. Maior também que o contingente das nossas Forças Armadas, esse efetivo presta serviço de segurança patrimonial nas cidades e nas áreas rurais.

Mesmo em se tratando de um segmento sob controle permanente, os vigilantes cadastrados e autorizados a trabalhar são um fator de alto risco e frequentemente estão envolvidos em roubos e furtos. E pelas estimativas, para cada empresa legalizada no país, existem pelo menos duas clandestinas.

Segundo o delegado Guilherme Maddarena, da Coordenadoria Geral de Segurança Privada da Polícia Federal, “se computarmos também os segmentos envolvidos com o crime, esses grupos se multiplicam e o número de seguranças extrapola a casa dos milhões”.

Embora   não   exista   estatística   confiável   sobre   o  setor,  os  números  apresentados pelo delegado durante a recente Operação Varredura – destinada a tirar de circulação as empresas e vigilantes clandestinos – sugerem que, além de se encontrar em franca expansão, o setor virou um monstro.

Em Londrina, por exemplo, nas 20 empresas vistoriadas, os policiais encontraram apenas duas devidamente registradas. Em Brasília, onde estão concentradas todas as forças de segurança e a fiscalização é mais eficiente, num mesmo universo, haviam oito empresas ilegais.

De 2008 até agora, a Polícia Federal autorizou 45 mil novos profissionais a trabalhar em todo o país. Os registros apontam que eles estão distribuídos por 33 mil agencias bancárias e 6 mil carros de transporte de valores. Se 450 mil estão empregados atualmente, o número de vigilantes aptos a entrar no mercado de trabalho – treinados com um mínimo de 160 horas/aula para espaço de um banco ou 220 horas para carros-forte – é bem maior: 1,6 milhão de pessoas, cada uma delas autorizada a portar uma arma de fogo.

A Polícia Federal tem fechado dezenas de empresas de segurança privada clandestinas ou – o que é comum – que extrapolam os ambientes internos do espaço privado (a área física de um banco ou uma fazenda) para invadir a área sob controle da segurança pública.

Já o pesquisador da ONG (Organização Não Governamental) Justiça Global, Rafael Mendonça Dias, afirma que “as quadrilhas que atuam no Rio  de  Janeiro em forma de milícias controlam atualmente 172 comunidades e estão se deslocando das zonas Oeste e Norte (Campo Grande e Jacarepaguá) para áreas urbanas da Baixada Fluminense e Sepetiba numa velocidade impressionante e completamente fora dos controles públicos”.

Segundo ele, “esses grupos atuam controlando território, coagindo a população, obtendo lucros – de atividades que vão da contravenção à venda de gás ou serviço de TV à cabo – mostrando um falso discurso de defesa da ordem pública e são formados, basicamente, por agentes públicos, como policiais civis e militares ou bombeiros”.

De vereadores a representantes cariocas no Congresso Nacional, elegeram 46 políticos nas últimas eleições. Nas regiões em que as milícias se consolidaram, segundo o pesquisador, “é perceptível o aumento da taxa de homicídios e de pessoas desaparecidas”. De seu lado, o delegado Maddarena afirma que “a Polícia Federal trata as milícias cariocas como verdadeiras quadrilhas”.

O assunto está posto e algo importantíssimo não foi apurado ou, ao menos, revelado: um grande número dessas empresas particulares de segurança pertencem, de forma escancarada, a delegados de polícia e coronéis da Polícia Militar, todos ainda na ativa. E, de jeito escamoteado, em nome de suas esposas ou filhos, porém quem manda e dá cobertura mesmo, não é preciso ser muito esperto para saber...

 

 

 

 

   

 

 

 

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AFANASIO JAZADJI - © 2008 - Todos os direitos reservados