"Salve geral", filme do PCC

 

 

Estreia no dia 2 de outubro (aniversário de 17 anos dos 111 mortos nos conflitos da Casa de Detenção de São Paulo e dia seguinte a um dos julgamentos de Marcos Herbas Camacho, o “Marcola”, chefão do PCC – Primeiro Comando da Capital que aterrorizou o Estado de São Paulo em 2006 promovendo ataques a repartições públicas e assassinando policiais) nos cinemas do Brasil o filme “Salve geral”, do carioca Sérgio Rezende.

Em ritmo de thriller, ele conta a rebelião de dezenas de presídios em nosso Estado e os ataques de maio de 2006, em pleno dia das mães. O filme pinta um retrato da loucura sócioinstitucional e da inépcia administrativa que permitiram que o Estado fosse colocado de cócoras contra a parede, assunto crítico em pleno ano eleitoral (como era o caso na época).

De lá para cá, o número de presos cresceu em 60 mil e o déficit de vagas, embora tenha diminuido um pouco nos últimos anos, permanece no altíssimo patamar entre 35% e 40% do total de detentos, que vai se aproximando da marca do meio milhão.

Para além dos números, um parâmetro vem se agravando: qualquer reflexão sobre a situação dos presos, amontoados às vezes por décadas no inferno das triagens superlotadas (retratadas no filme) é comumente vista como defesa da bandidagem.

O bom senso e a lógica passam longe: a percepção  de  que  tratar  presos como lixo acaba se voltando contra a sociedade, gerando mais violência dentro e fora dos presídios, mais mortes, mais prejuízos materiais, não é privilégio dos que advogam pelos hoje malfadados “Direitos humanos”.

É uma evidência objetiva. Sem falar dos que ali estão por crimes menores ou até dos inocentes sem dinheiro para um capaz e honesto advogado. Se não for pelo humanismo, o pragmatismo é suficiente para que se conclua que pensar nos presos, é, sim, do interesse geral de quem não prega a guerra, o derramamento inútil de sangue, o obscurantismo.

Do contrário, como numa macabra inversão do lema paradoxal da referida facção criminosa (“Paz, justiça e liberdade”), teremos cada vez mais “guerra, injustiça e prisão”. O filme, embora não mostre e nem resvale na verdade-verdadeira que desencadeou os tristes acontecimentos de maio de 2006, ainda assim, merece ser visto.

Como deputado estadual à época, presidente da Comissão de Segurança Pública da Assembleia Legislativa de São Paulo, acompanhei como poucos aquelas atrocidades. A causa de tudo em momento algum foi revelado pelo governo de então. Muito ao contrário: foi escondido, não obstante a pixotada, para dizer o mínimo, de algumas autoridades (ir)responsáveis pela segurança pública em São Paulo naquele momento.

A pusilanimidade de um ex-juiz de  direito  elevado  à  condição  de  cuidar dos assuntos carcerários e sua dificuldade oriental de entender e tratar as realidades do cárcere, remeteram ao top da bandidagem o ex-batedor de carteiras “Marcola”e tornaram conhecida mundialmente a organização “15-33” ou o “Partido do Crime”, como ficou famoso o PCC.

O confuso secretário, para punir um presidiário de quinta categoria, a fim de fazer valer sua “otoridade” no sistema, simplesmente resolveu – sem ouvir funcionários tarimbados do setor, mais calejados – cancelar a visita do Dia das Mães em todas as penitenciárias do Estado.

O ex-magistrado, ungido a secretário pela “experiência” de ter chefiado a cadeia pública de Bragança Paulista, cometeu a cretinice de mexer com o que há de mais sagrado junto à massa carcerária: a família, particularmente, a mãe dos presos.

Mais: ele ainda resolveu transferir do Interior para a Capital, de castigo, os “cabeças” do PCC, entre eles o líder “Marcola”. E deu no que deu. Os fracos governantes da época, só meses depois descobriram o que o incompetente secretário havia provocado e o destituíram. Já era tarde. Ele atiçou os bandidos contra a sociedade e as autoridades, onde 493 vidas foram ceifadas de ambos os lados, além dos prejuízos materiais causados com os incêndios, detonação de bombas e tiros contra quartéis, delegacias e fóruns.

O PCC só cresceu e seus chefões ganharam mais prestígio...

 

 

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AFANASIO JAZADJI - © 2008 - Todos os direitos reservados